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Para
isso, segundo Vezzoli, foi fundado um centro de pesquisa interdepartamental
de inovação para a sustentabilidade do ambiente e
um laboratório de requisitos ambientais de produtos industriais.
Neste centro, Vezzoli é o coordenador de vários
projetos de pesquisa, financiados pela Comunidade Européia
e pela Agência Nacional de Proteção Ambiental.
As pesquisas visam definir critérios, estratégias
e ferramentas voltadas para o desenvolvimento de serviços
e produtos de baixo impacto ambiental.
Entrevista:
Carlo Vezzoli: "O que é realmente necessário
é uma nova geração de produtos e serviços
baseados em novos valores e novos padrões de qualidade, mais
coerentes com a transição para uma sociedade sustentável".
POS: Como
você vê a transformação do desenho de
objetos em relação aos assuntos ecológicos
atuais?
CV: O desenho de produtos
industriais tem de adotar uma perspectiva mais sistêmica para
se aproximar da perspectiva ecológica. Ele tem que adotar
o que é chamado de visão do ciclo de vida. Uma visão
na qual o sistema a ser desenhado é composto de todos os
processos que caracterizam o produto em seu funcionamento, ou o
sistema de todos os efeitos danosos que todas as entradas e saídas
deste sistema estão causando.
E isso somente para falar sobre a fase de uso, mas, geralmente,
os processos a ser considerados estão relacionados a todas
as fases do ciclo de vida, da produção de materiais
para a extração de recursos à produção
do produto, distribuição, incluindo empacotamento,
uso e disposição. Em todas aquelas fases existem processo
com efeitos danosos potenciais. O desenho do projeto tem que se
mover do desenho de produto para o desenho do projeto das fases
do ciclo de vida desse produto com o objetivo de minimizar o impacto
ambiental geral.
Isso pode ser conseguido desenhando um produto que
visa minimizar o consumo de energia e de materiais em todas as fases
do ciclo de vida. Para conceber isto é essencial o desenho
de produtos e componentes com uma longa e intensiva vida. Além
disso, um produto tem que ser desenhado para facilitar a reciclagem
de material e a recuperação de energia.
Geralmente, nós nos referimos a este critério
como desenho de ciclo de vida ou projeto de ciclo de vida. É
claro que esse enfoque requer um know-how específico e ferramentas
específicas. E isso torna a atividade de projeto mais complexa.
Mas complexidade é a realidade com a qual nós temos
que aprender a conviver, uma oportunidade de criar uma geração
de produtos e serviços mais interessantes do que aqueles
que nós temos atualmente.
POS: Há
um protocolo ético mundialmente aceito sobre a criação
objetos que respeitam esse enfoque ambiental?
CV: Não é
realmente um protocolo ético para o projetista. O que está
faltando é um entendimento correto do papel do projetista
junto com todos os atores da produção e sistema de
consumo, o entendimento do ambiente no qual o desenvolvimento social
e produtivo deve ter lugar para enfrentar a questão ambiental.
O que não é realmente um protocolo ético, mas
um conceito compartilhado mundialmente para um desenvolvimento produtivo
e social. O que é levado em consideração é
que o desenvolvimento social e produtivo deve ter lugar dentro dos
limites ajustados pelo ambiente, enfocando as necessidades da geração
presente sem comprometer a durabilidade da geração
futura em alcançar as suas necessidades de uma forma eqüitativa.
O que nós sabemos é que a sustentabilidade
requererá uma mudança profunda na cultura industrial.
Nas próximas décadas nos teremos que aprender a como
viver, confiando pelo menos 10% dos recursos ambientais que as sociedades
industrializadas estão usando hoje. Uma mudança radical
de padrões de produção e consumo tem de ocorrer.
De fato, para que os padrões de qualidade estejam adequados
à quantidade de produtos apropriados e consumidos e até
que economia seja baseada numa produção de produtos
físicos, não há melhor maneira de consumir
e produzir menos.
Não acredito que apenas as inovações
tecnológicas serão suficientes. Temos que inovar também
em termos culturais e sociais, nos nossos padrões de consumo
e isso é um entendimento muito importante até mesmo
para a cultura e prática do projeto, o que significa que
o projeto tem de adotar um enfoque de ciclo de vida. E isso não
é somente um re-projeto dos produtos existentes. O que é
preciso é que a nova geração de produtos e
serviços confie em valores e padrões de qualidade
mais coerentes com o padrão de uma sociedade sustentável.
POS: Como
você vê o Brasil no cenário mundial do eco projeto?
CV: Acho que um passo
importante tem de ser dado em direção a um melhor
entendimento e implementação do projeto da sustentabilidade
ambiental. A cultura e a prática do projeto não estão
conscientes das mudanças que são requeridas e não
estão equipados para projetar uma nova geração
de produtos sustentáveis. Se olharmos para alguns destes
produtos ditos eco-projetados, se percebe que eles não são
tão bons em termos ambientais. Eles são até
mesmo piores do que outros similares. Eu tenho visto muitos produtos
reduzindo seu impacto em uma fase, mas aumentando o impacto no ciclo
de vida total.
Eu não gosto muito de abusar da expressão
eco-design, eco-projeto. Eu prefiro falar sobre projeto de ciclo
de vida, mais significante e muito menos na moda. Não quero
dar exemplos de maus produtos, mas existem vários mal-entendidos
sobre o eco-design, como dizer que um produto é verde porque
tem material reciclado, quando de certa forma a maioria dos materiais
são recicláveis. O questionamento real é desenhar
um sistema que está realmente reciclando-os e uma arquitetura
do produto que torne isso fácil e que tenha um custo efetivamente
menor em todo o ciclo de reciclagem, começando do transporte
e separação do material. Tudo isso nos diz que uma
nova geração de designers conscientes da sustentabilidade
é necessária no Brasil e na Itália, o que significa
que quem é responsável pela pesquisa e educação
tem um importante papel a fazer.
POS: Na
sua opinião quais são novas maneiras do mundo do design
e qual o impacto dessas transformações na vida e na
cultura da sociedade contemporânea?
CV: Olhando para a sociedade
contemporânea na perspectiva da sustentabilidade, uma re-orientação
das idéias da economia deve ser necessária. Precisamos
nos mover de um tipo de economia tradicional, orientada ao produto
para um novo e mais sustentável tipo de economia em direção
as soluções mais eficientes e materializadas. Precisamos
nos mover de um sistema econômico de valores lincado com a
propriedade individual de produtos físicos para valores mais
desmaterializados, tais como utilidade e acesso, o que acontece
com uma transição em direção a uma economia
de novos serviços, suportada pelas tecnologias de comunicação
e de informação. De fato, o que vemos é o surgimento
de novas formas de organização nos quais companhias
são redes flexíveis. Nós vemos novas relações
entre produtores e usuários, nós vemos o surgimento
de uma nova economia, a economia de serviços.
Neste contexto, o aumento no número de pessoas
está articulando sua própria idéia de existir,
de ser. Eles deixam ou integram a tradicional maneira de ser como
possuindo coisas com novas atitudes e expectativas que podem ser
sintetizadas com a expressão um jeito de ser com uma liberdade
de acesso. Essa transição sócio-econômica
é, certamente, não sustentável de per si. Ela
apresenta os riscos das evoluções anti-democráticas
e o alargamento da distância entre pobres e ricos. Mas o que
quero enfatizar são as potencialidades positivas. De fato,
essa transição apresenta oportunidades muito interessantes
para o comércio orientado à sustentabilidade.
Primeiro, em virtude da potencial desmaterialização
das novas tecnologias. Além disso, em virtude do aumento
das possibilidades em gerenciar sistemas mais e mais complexos de
interação, permitindo fluxos mais eco-eficientes de
recursos em um nível sistêmico e finalmente em virtude
do aumento das atividades de outsourced, liderando um potencial
maior de consumo de recursos eficientes, principalmente em virtude
de uma economia de escala e especialização.
A validade econômica desse deslocamento de valor
na demanda é baseada no fato de que a demanda dos usuários
não é por produtos e serviços, mas pela utilidade
que esses produtos e serviços permite alcançar. Se
essa utilidade é evidente, esse novo tipo de produto pode
ser reconhecido pelos consumidores como melhores respostas do que
as existentes ou como soluções que se adequam a demandas
não respondidas antes. Esse é o quadro no qual o projeto
para a sustentabilidade tem de ser capaz de atuar. São as
demandas latentes do bem-estar coerentes com os novos valores trazidos
pela transição sustentável, capaz de dar forma
em termos de produtos e serviços apreciáveis socialmente.
O significado de design tem de ser alargado para um
nível mais estratégico, significando não somente
para dar forma a produtos físicos, mas também desenhar
e integrar sistemas de produtos e serviços. Produtos e serviços
coerentes com uma perspectiva de sustentabilidade a médio
e longo prazo, mas, ao mesmo tempo, economicamente alcançáveis
e socialmente apreciáveis hoje.
As informações publicadas
nesta matéria foram fornecidas pelo entrevistado, cabendo
a este a responsabilidade sobre os conteúdos veiculados.
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