| Como
surgiu seu interesse em estudar o papel das tecnologias no processo
de criação artística??
Já em meados dos anos 80, trabalhei como usuária de
um sistema computacional na área do planejamento multimodal
de transportes do Estado da Bahia. Este fato me fez, intuitivamente,
perceber as potencialidades que os novos meios eletrônicos
possuem no desenvolvimento das atividades intelectuais e criativas
do homem. Com base nesse pressuposto e na tentativa de identificar
o que de "novo" surge com a introdução das
novas tecnologias eletrônicas no desenvolvimento do fazer
artístico, resolvi, no início dos anos 90, já
como professora do Curso de Desenho Industrial da UNEB, iniciar
o meu Mestrado em Multimeios no Instituto de Artes da Unicamp. Lá,
desenvolvi, sob orientação do Prof. Julio Plaza, a
minha dissertação Os processos criativos com os meios
eletrônicos, que recebeu o prêmio "Intercom 96
para Estudos Interdisciplinares da Comunicação".
Por outro lado, em concomitância à formação
de uma equipe de pesquisa visando expandir a mera relação
acadêmica docente/discente, essa dissertação
agregou-se aos textos desenvolvidos pelo Prof. Julio Plaza como
tese universitária, resultando daí a publicação
do livro Processos criativos com os meios eletrônicos: poéticas
digitais, Editora Hucitec, 1998. Ao investigar as questões
relacionadas à criação das imagens eletrônicas,
esse livro traz reflexões sobre o estatuto da arte no contexto
das sociedades pós-industriais.
Até
que ponto as novas tecnologias interferem no resultado final do
processo de criação?
Para mim, existem duas questões importantes
que devem ser bem delimitadas. A primeira, que diz respeito aquilo
que estas novas tecnologias trazem consigo e que modificam o processo
de criação, e a segunda, que destaca o tipo de postura
que o criador tem diante desses novos meios. |
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No primeiro
caso, é bom lembrar que os novos produtos artísticos
se evidenciam mais pelo modo ou processo como foram realizados,
e não simplesmente pelo que eles representam. E, aqui, cabe
salientar como a interatividade, a hipermídia, o aparecimento
de distintas interfaces, as redes telemáticas etc. têm
contribuído de forma decisiva para o desenvolvimento de novas
poéticas artísticas. Já no segundo caso, vale
considerar que a troca estabelecida entre o criador e o meio produtivo
reflete relações dialéticas na utilização
da tecnologia como inovação e da tecnologia como conservação.
E este fato, obviamente, implica dois tipos de trabalho: os que
privilegiam o uso do meio como documentação ou memória
e aqueles que se impõem como forma de manifestação
da criatividade estética, empregando o meio como potencial
de criação, e não simplesmente como recurso
para a reprodução.
Seus
estudos determinaram um modo diferente de ensino das artes?
No momento em que as discussões
sobre arte e tecnologia se voltam para as questões de hardware
e software, a contribuição do livro Processos criativos
com os meios eletrônicos: poéticas digitais, de minha
autoria e do Prof. Julio Plaza, se dá na medida em que deslocamos
o eixo do debate para as questões das metodologias heurísticas
e das poéticas artísticas. Nesta perspectiva, abrem-se
horizontes de pesquisa e ensino no campo da arte digital, instituídos
na confluência dos domínios da tecnociência e
da comunicação.
Como
avaliar o processo criativo dos alunos no contexto de uso de novas
tecnologias?
No contexto do que anteriormente foi
exposto, tomando em consideração o processo, interessa-nos
analisar os distintos modos de operar e a postura do criador diante
do meio utilizado. E, por outro lado, levando em conta o resultado
da criação, é possível identificar como
a imagem realizada é conseqüência lógica
do seu meio de produção e como as qualidades do meio
utilizado influenciam a forma de representação.
Quais
aspectos deste tema você está trabalhando neste momento?
Ao tomar como eixo central de investigação
as relações entre produção/arte/ recepção,
em 2001, finalizei a minha tese de doutorado A recepção
no contexto das poéticas interativas, que buscou analisar
as imagens interativas, apreendendo como os procedimentos poéticos
e tecnológicos adotados na produção da obra
interativa podem vir a condicionar a sua recriação.
Mais recentemente, com base no pressuposto de que os usos do objeto
seguem o caráter ativo do processo que o gerou, estou desenvolvendo
a pesquisa A leitura do objeto do design. Esta pesquisa visa estudar
o objeto do design com base na dialética entre as suas funções
e os seus usos possíveis, procurando destacar o que está
implicado no processo de leitura, que direciona o usuário/intérprete
a uma determinada ação e, conseqüentemente, ao
atendimento de necessidades. Ademais, mesmo que não diretamente
inserido no contexto do tema aqui tratado, cabe ainda mencionar
o Programa de Qualificação Institucional em Design
(PQI), que está em fase de implantação e será
realizado entre a UNEB e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP. Este programa tem como meta a formação e a
qualificação de professores do Curso de Desenho Industrial
da UNEB no âmbito do Mestrado e Doutorado. Conta com a Profa.
Maria Cecília Loschiavo dos Santos, na qualidade de coordenadora
acadêmica pela IES cooperante, e com a minha pessoa, na qualidade
de coordenadora acadêmica pela IES de origem.
As informações publicadas
nesta matéria foram fornecidas pelo entrevistado, cabendo
a este a responsabilidade sobre os conteúdos veiculados.
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