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O design, como atividade profissional, pode ser um bom negócio, por que?

A falta de concorrência dos produtos brasileiros com similares estrangeiros, durante muitas décadas, levou a indústria nacional a permanecer numa situação confortável, até que a política econômica abrisse o nosso mercado aos produtos importados. Com isso, o design passou a receber atenção especial dos empresários brasileiros, pois não conseguiam mais concorrer com igualdade de condições com os produtos estrangeiros disponibilizados no mercado. Era notória a diferença de satisfação que os consumidores experimentavam quanto à estética, a qualidade, os baixos preços e a durabilidade. Os empresários perceberam que o design agregava valor ao produto no ponto de vendas, e isso passou a ser uma grande prioridade para aqueles que queriam se manter no mercado, apesar da forte concorrência internacional. A partir daí, essa atividade profissional, antes confundida com a de desenhista técnico, ganhou novo impulso entre o empresariado industrial, tornando-se um excelente campo de atuação profissional.

A formação dos designers tem possibilitado a este profissional lidar com questões relacionadas tanto ao gerenciamento do seu próprio negocio quanto aquelas relacionadas às empresas para as quais ele presta seus serviços?

Com a experiência em lecionar por quase 25 anos nos cursos de Desenho Industrial no Rio ( ESDI, UFRJ, PUC-RIO, UNIVER CIDADE) e mais recentemente em Salvador (no Pósdesign – UNEB), o que verifico é que o gerenciamento e gestão do Design não têm, ainda, uma carga horária suficiente a ponto de instrumentalizar o designer diante de questões básicas do seu próprio negócio ou das empresas com as quais se relaciona.
De um modo geral, os profissionais ao se lançarem no mercado vão aprendendo a lidar com esses assuntos no dia-a-dia, muitas vezes de forma empírica, comprometendo o desempenho dos negócios. Melhor seria se fossem despertados durante o curso de graduação, para a necessidade de um conhecimento básico em Administração Geral, Finanças, Marketing, Direito Comercial, Relacionamento Interpessoal, Propriedade Industrial envolvendo marcas e patentes, além de muitos outros temas.

Ainda sem regulamentação, como o profissional de design pode, na sua opinião, superar as dificuldades para se inserir no mercado?

Há inúmeras profissões no Brasil que são regulamentadas e, esse fato em si, não garante inserção no mercado para profissional algum de nível superior. O grande diferencial, a meu ver, é a segurança e a competência de cada um, diante do seu legítimo mercado de trabalho. As dificuldades encontradas pelos profissionais de design sempre tiveram duas vertentes básicas: uma delas ligada às escolas de design e a outra às características do mercado brasileiro. As escolas de design, inicialmente, deram mais ênfase ao ensino da Comunicação Visual do que ao de Projeto de Produto. Com isso, houve um enorme desenvolvimento nesse campo que inclui a criação de imagem empresarial, o estudo de papéis, a sinalização empresarial, entre outros. Não constatamos tamanho desempenho no desenvolvimento de produtos nacionais. Há casos pontuais, no entanto, que merecem destaque no design de produtos. Em contrapartida, os excelentes projetos visuais estão presentes em todos os ramos de atividades. Por outro lado, os empresários brasileiros, após a abertura do nosso mercado aos produtos importados, puderam sentir a presença da forte concorrência dos produtos com um bom design e baixo preço que vinham do exterior. É bom lembrar que, antes desta abertura, 98% da nossa produção industrial era vendida no Brasil. Nesta época, os empresários brasileiros não sentiam necessidade de investir em design já que a concorrência entre produtos nacionais era muito tênue. Nesta época, parecia não haver mercado para o design de produtos. E essa foi uma das razões que contribuiu para que os currículos mínimos das escolas não dessem ênfase às tecnologias mais complexas e os poucos projetos de produto de sucesso, concentravam-se em áreas de tecnologias menos exigentes. Hoje, a situação é outra. A concorrência é cada vez mais acirrada, levando o empresariado a procurar designers para participarem de projetos de lançamento de seus produtos industriais. Acredito que, havendo competência na formação de designers, certamente, esses profissionais serão absorvidos por esse amplo mercado industrial brasileiro já que, hoje, o design passou a ser uma necessidade inadiável.

O design tem sido encarado cada vez mais sob o aspecto gerencial. Como ele pode contribuir na gestão de uma empresa?

A linha de bons produtos de uma empresa é a “alma do negócio”. Mas, o que podemos conceituar como sendo um bom produto? Sob o ponto de vista comercial, o bom produto é aquele que se vende em quantidades suficientes para cobrir os custos fixos e variáveis e ainda gerar uma parcela de lucro, que garanta a manutenção e o desenvolvimento da empresa. Gerenciar a área de desenvolvimento de produtos é uma tarefa desafiadora que envolve inúmeros aspectos: design; mercado; produção; custos; concorrência; novas tecnologias; novos materiais e processos de fabricação; ergonomia, engenharia de produção e muitos outros. Coordenar esta multiplicidade de áreas em grandes empresas é tarefa da engenharia concorrente ou simultânea. Nas pequenas e médias empresas, entretanto, tem que ser executada por um profissional que conheça planejamento nos seus três níveis, gerência de projetos e tenha conhecimento de todas estas áreas envolvidas e possua aptidões específicas para coordenar. Esse profissional é o designer? Pode ser, se ele complementar a sua formação acadêmica em áreas de gestão empresarial. Caso contrário, essa importante tarefa será exercida por profissional da área administrativa ou da área da engenharia que, mesmo não tendo formação em design, consiga obter os melhores resultados desses inúmeros profissionais envolvidos nessa complexa tarefa de gerenciar o desenvolvimento de produtos industriais.

Com um universo de empresas na sua grande maioria de pequeno e médio porte, é possível que o design seja um elemento importante na gestão destas empresas?

O design tem uma enorme importância na gestão, seja qual for o tamanho da empresa. Valorizar o design é garantir competitividade ao produto e desenvolvimento à empresa, desde que realizado por profissionais experientes que saibam adequar recursos da empresa, necessidades do mercado e metas a serem alcançadas. O designer bem informado e conectado com a conjuntura política, economia, social e, principalmente, com as tecnologias disponíveis, terá um papel importante em qualquer empresa e contribuirá decisivamente para uma boa gestão nas PMEs.

Como o profissional de design pode se colocar neste mercado?

Em qualquer mercado ou ramo de atividade, a colocação no mercado não é tarefa das mais simples. Geralmente, as empresas exigem experiência, mas não oferecem oportunidade para que o recém formado a adquira. Parece uma situação sem solução. A questão é: como romper esse círculo vicioso? As escolas de medicina oferecem a residência aos alunos, para que adquiram a experiência indispensável e aprová-los como médicos. Nas escolas de design não é assim. O aluno realiza o projeto de graduação e é lançado no mercado de trabalho como o mais novo designer. Ao chegar, verifica que todos fazem design com ou sem formação específica: advogados; engenheiros; arquitetos; médicos e encontra, também, designers. Essa realidade assusta o recém formado que, não encontrando colocação em empresas, parte para abrir o seu próprio escritório. A partir daí, ele começa a se deparar com um conjunto de assuntos para os quais ele não foi preparado: contabilidade, bancos, finanças, marketing, pessoal, legislação, fiscalização, etc. O Sebrae possui estatísticas contundentes a respeito desse tema mostrando que grande parte daqueles que abrem o seu próprio negócio, sem conhecimento específico em administração e gestão de negócios, fecha as suas portas nos primeiros anos de atividade. O designer vai encontrar uma forte concorrência no mercado. Para tanto, precisará estar bem preparado nestas questões administrativas. É necessário que complemente a sua graduação na área de gestão empresarial fazendo uma especialização ou cursando, por exemplo, um MBA que, certamente, o habilitará ao mundo dos negócios.

O investimento para inserir o design na empresa ainda não é muito alto?

É pouco provável que o designer, seguindo a metodologia de desenvolvimento de produtos que, entre outras questões, considera: a problematização, o estudo da tarefa, os requisitos projetuais, as restrições projetuais, as questões ergonômicas, os sistemas mecânicos, elétricos, hidráulicos, os materiais, os processos, a semiótica, o mercado, desenvolva um produto menos competitivo do que aquele empresário que considere, apenas, alguns fatores.
Desenvolver um produto sem a participação de um designer pode, muitas vezes, envolver menos custos, isto é, ser mais barato, mas, é um enorme risco. Quando o produto é lançado no mercado é que se evidencia o grande diferencial. Os consumidores percebem que o produto não satisfaz e a sua reação é não comprar. Com isso, os volumes de venda não atingem patamares satisfatórios e logo começam a surgir os prejuízos. Há casos, no entanto, que o empresário identifica a necessidade de contratar um designer para alavancar os seus resultados econômico-financeiros sem que disponha de recursos. Uma alternativa que tem dado bons resultados é a de se estabelecer um contrato de risco entre a empresa e o designer. Na prática, o projeto é executado sem ônus imediato para a empresa. Logo que as peças começam a ser produzidas, há uma porcentagem, estabelecida de comum entre as partes, que se aplica a cada unidade fabricada. O designer poderá receber muito além do que cobraria pelo projeto, sem onerar a empresa de imediato e, o que é melhor, uma profícua parceria estará nascendo. Não há custo social e financeiro mais elevado do que contratar pessoas, movimentar recursos e ao final se apurar um grande prejuízo. Afinal, a empresa tem uma enorme função social e não apenas a de gerar resultados financeiros. Por outro lado, nada é mais nocivo à empresa do que gerar volumes de venda abaixo do seu ponto de equilíbrio. É importante que o empresariado tenha consciência de que as suas decisões de gastar pouco com o desenvolvimento de produtos, pode levá-lo a gerar grandes prejuízos mais adiante. O custo de se contratar o trabalho de um bom profissional de design é facilmente absorvido diante dos bons resultados que a empresa experimenta ao longo da vida útil do produto.

As informações publicadas nesta matéria foram fornecidas pelo entrevistado, cabendo a este a responsabilidade sobre os conteúdos veiculados.

- Robson Santos

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